Corrida que custava R$ 30 passa de R$ 75 no Rio e expõe distorção nos preços da Uber
Trajeto de 9 km entre o Maracanã e o Humaitá teve aumento superior a 150% no primeiro dia de 2026
Arquivo Jornal Gazeta do Rio Comparação com valores praticados pela 99 no mesmo horário reforça suspeita de prática abusiva e pressiona órgãos de defesa do consumidor
Rio de Janeiro (RJ) — Um trajeto cotidiano, relativamente curto e amplamente utilizado por quem cruza a cidade logo nas primeiras horas do dia voltou ao centro do debate sobre preços abusivos no transporte por aplicativo. Na manhã desta quinta-feira (01/01/2026), uma corrida entre o Maracanã e o Humaitá — percurso de aproximadamente 9 quilômetros, que em condições normais varia entre R$ 25 e R$ 30 — foi ofertada pela Uber por R$ 75,96, mais que o dobro do valor historicamente praticado.
Print da tela do aplicativo UBER enviado pela leitora do Jornal Gazeta do Rio
O próprio aplicativo indicava o aviso “preços maiores do que o normal”, mas sem qualquer explicação objetiva sobre os critérios que levaram a esse aumento expressivo. Mesmo considerando variações de demanda comuns ao período de réveillon, trata-se de um deslocamento urbano regular, sem registro de interdições relevantes ou ocorrências extraordinárias capazes de justificar, de forma clara, a cobrança de quase R$ 80 por uma corrida de 9 km.
O episódio ganha ainda mais relevância por ocorrer poucos dias após a Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor e o Procon-RJ notificarem plataformas de mobilidade para prestar esclarecimentos sobre aumentos registrados em dezembro de 2025. À época, os órgãos destacaram que o Código de Defesa do Consumidor veda a elevação de preços sem justa causa e exige informação clara, prévia e transparente ao consumidor.
Comparação com a 99 reforça suspeita de abuso
Um novo elemento fortalece o questionamento sobre a política de preços da Uber. No mesmo dia, horário e contexto urbano, o aplicativo 99 apresentava valores significativamente inferiores para percurso semelhante. Prints registrados na manhã de 1º de janeiro de 2026 mostram corridas na faixa de R$ 39,80 na categoria Pop, R$ 33,80 no serviço de moto e opções negociáveis abaixo de R$ 35.
Print da tela do aplicativo 99 enviado pela leitora do Jornal Gazeta do Rio
A diferença entre as plataformas ultrapassa R$ 35 para um mesmo deslocamento urbano, praticamente o dobro do valor cobrado pela concorrente. A comparação direta enfraquece o argumento genérico de alta generalizada de demanda. Se o aumento fosse resultado exclusivo de fatores externos — como trânsito intenso, eventos extraordinários ou escassez de motoristas — os valores tenderiam a se aproximar entre as plataformas, o que não ocorreu.
Na prática, o consumidor se depara com dois aplicativos operando no mesmo território, no mesmo horário e com discrepâncias expressivas de preço. O aviso genérico de “preços acima do normal” não esclarece por que um trajeto historicamente acessível passa a custar mais que o dobro, criando um evidente desequilíbrio na relação de consumo.
Pressão por resposta dos órgãos de defesa do consumidor
Diante de casos concretos, documentados por registros visuais, valores comparativos e dados objetivos, cresce a expectativa por uma atuação mais incisiva da SEDCON e do Procon-RJ. Não basta solicitar relatórios genéricos ou aceitar justificativas padronizadas baseadas em “dinâmica algorítmica”. Situações claramente identificadas — com data, horário, trajeto e comparação entre plataformas — exigem análise rigorosa e, se confirmada a prática abusiva, a adoção de medidas efetivas.
Mais do que um debate técnico, o episódio toca diretamente o direito de ir e vir e o orçamento de quem depende diariamente do transporte por aplicativo. Quando atravessar 9 km na cidade custa R$ 40 em uma plataforma e quase R$ 80 em outra, o questionamento deixa de ser teórico e passa a ser uma demanda legítima do consumidor por transparência e razoabilidade.
A pergunta que permanece, agora reforçada por dados concretos, é direta e inevitável: quanto custa atravessar o Rio sem ser penalizado por um algoritmo? Enquanto essa resposta não vier acompanhada de critérios claros e verificáveis, o consumidor seguirá pagando uma conta cada vez mais imprevisível.





