KFC retira frango com osso no Brasil e reacende debate sobre tradição e estratégia de mercado
Decisão da rede de fast-food acompanha tendência global de priorizar tiras e sanduíches, mas levanta questionamentos sobre adaptação cultural e fidelidade do consumidor brasileiro.
KFC retira pedaços de frango com osso no Brasil. Foto: Reprodução Ao retirar do cardápio os tradicionais pedaços de frango com osso, o KFC reposiciona sua operação no Brasil e provoca debate sobre tradição alimentar, estratégia de mercado e comportamento das novas gerações.
A decisão do KFC de retirar do cardápio brasileiro os tradicionais pedaços de frango com osso e concentrar a operação em tiras e produtos sem osso marca uma mudança estratégica relevante no posicionamento da rede no país. A alteração acompanha uma tendência observada nos Estados Unidos, onde a empresa busca se aproximar de públicos mais jovens e adaptar-se ao consumo de refeições rápidas, individuais e de fácil compartilhamento digital.
No entanto, no Brasil, o movimento tem gerado questionamentos entre consumidores habituais da marca e reacendido um debate mais amplo sobre identidade, tradição alimentar e adaptação de multinacionais ao comportamento local.
Mudança global, impacto local
Nos Estados Unidos, a discussão gira em torno da preferência crescente por carne branca sem osso, especialmente entre a geração Z. O argumento é que esse público valoriza praticidade, rapidez e produtos mais fáceis de consumir no dia a dia.
No Brasil, porém, o contexto cultural é diferente. O frango com osso está profundamente associado à refeição familiar e ao hábito tradicional do almoço completo, que inclui arroz, feijão e acompanhamento. O frango assado de padaria aos domingos é um exemplo emblemático desse padrão de consumo.
Ao abandonar o frango com osso, o KFC altera não apenas o cardápio, mas também sua conexão simbólica com o produto que historicamente definiu sua marca, desde os tempos de Colonel Sanders, fundador da rede.
Concorrência e reposicionamento
A mudança também insere o KFC em um ambiente competitivo diferente. Sem o frango com osso, a rede passa a disputar espaço diretamente com Lanchonetes especializadas em nuggets e tiras; Redes de sanduíches; e Operações de fast-food voltadas ao consumo individual. Ao mesmo tempo, deixa de competir com maior ênfase no segmento de refeições compartilháveis, no qual o balde tradicional era um diferencial. E no mercado brasileiro, onde o KFC nunca alcançou a liderança absoluta do segmento, o reposicionamento pode representar tanto uma tentativa de modernização quanto um risco de descaracterização.
Tradição versus adaptação
Especialistas em comportamento de consumo apontam que a adaptação de marcas globais a tendências internacionais nem sempre produz os mesmos efeitos em mercados com forte identidade alimentar.
O Brasil mantém hábitos de consumo coletivos e familiares mais acentuados do que o padrão norte-americano. A substituição integral de um produto icônico por versões mais práticas pode gerar distanciamento de consumidores fiéis, especialmente aqueles que associavam a marca ao balde tradicional.
Por outro lado, o movimento também pode representar uma tentativa de atrair novos públicos, ampliar ticket médio individual e otimizar operações logísticas.
Um debate que vai além do cardápio
A retirada dos pedaços com osso não é apenas uma mudança operacional. Ela simboliza um dilema comum a grandes redes internacionais: até que ponto vale priorizar tendências globais em detrimento de particularidades culturais locais?
No caso do KFC no Brasil, a resposta ainda dependerá da reação do mercado. Se a nova estratégia ampliar a base jovem sem afastar consumidores tradicionais, o reposicionamento poderá ser consolidado. Caso contrário, a marca poderá enfrentar um desafio de identidade em um segmento altamente competitivo.
O episódio reforça que, no setor de alimentação, tradição, memória afetiva e comportamento cultural continuam sendo variáveis estratégicas tão relevantes quanto preço e inovação.





