Marcio Curvello

Juiz de Fora: entre a chuva e a omissão

Tragédia expõe fragilidades estruturais e levanta debate sobre responsabilidade institucional

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio | Feito com IA
Juiz de Fora: entre a chuva e a omissão Juiz de Fora: entre a chuva e a omissão. Uma tragédia anunciada.

A tragédia registrada em Juiz de Fora, com mais de 40 mortos, 13 desaparecidos e milhares de desabrigados, não pode ser compreendida apenas como consequência de um evento climático extremo. O que se viu não foi apenas a força da chuva — foi a exposição de fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas de planejamento insuficiente, fiscalização precária e ausência de políticas públicas contínuas.

Em pronunciamento oficial, a prefeita Margarida Salomão classificou o episódio como excepcional, enfatizando o volume atípico das precipitações. No entanto, Juiz de Fora está situada na Zona da Mata mineira, região historicamente marcada por períodos intensos de chuva, relevo acidentado e encostas ocupadas. O regime pluviométrico não é novidade. O que se repete é o padrão de vulnerabilidade urbana.

A cidade cresceu ao longo dos anos com ocupações em áreas de risco, expansão desordenada e moradias erguidas em encostas sem infraestrutura adequada de drenagem e contenção. Residências improvisadas, ampliações irregulares e ocupações avançando sobre áreas frágeis compõem um cenário que não é invisível — é cotidiano. Basta olhar para os morros.

Morei em Juiz de Fora e atuei profissionalmente na área da saúde. Com mais de 20 anos de experiência em enfermagem de emergência, tanto no ambiente pré-hospitalar quanto intra-hospitalar, e mais de 15 anos dedicados à Defesa Civil, aprendi que desastres raramente surgem de forma repentina. Eles são precedidos por sinais claros: relatórios técnicos ignorados, mapeamentos de risco que não se convertem em políticas habitacionais, alertas que não resultam em investimentos estruturantes.

Tentei desenvolver projetos voltados à gestão de risco no município, mas encontrei resistência e falta de comprometimento com políticas permanentes de prevenção. O que deveria ser prioridade estratégica foi tratado como ação episódica. A gestão de risco exige continuidade administrativa, integração entre secretarias, orçamento próprio, fiscalização sistemática e fortalecimento institucional da Defesa Civil. Sem esses pilares, o poder público atua apenas de forma reativa — sempre depois da tragédia.

O que transforma um temporal em catástrofe humanitária não é exclusivamente o volume de água, mas a combinação de vulnerabilidade social, ocupação irregular e ausência de política habitacional consistente. Quando famílias vivem em encostas instáveis e áreas sujeitas a deslizamentos, o desastre deixa de ser hipótese e passa a ser questão de tempo.

Também causa preocupação a postura de parte da cobertura local, que priorizou o impacto emocional das imagens e depoimentos, mas deixou em segundo plano o questionamento estrutural. O jornalismo, especialmente em momentos críticos, precisa confrontar versões oficiais, cobrar transparência e contextualizar riscos já conhecidos. Informar é também fiscalizar.

Não se trata de ignorar a força da natureza, mas de reconhecer que ela incide sobre um território moldado por decisões políticas. Tragédias não começam quando a chuva cai; começam quando o planejamento urbano é negligenciado, quando a fiscalização é falha, quando a prevenção perde espaço para medidas emergenciais.

A maior distorção está na narrativa que transforma o desastre em fatalidade inevitável. Ao fazer isso, dilui-se a responsabilidade institucional e perpetua-se o ciclo de omissão. A discussão central não é sobre o volume da precipitação, mas sobre a capacidade — ou incapacidade — de antecipar riscos previsíveis.

No Brasil, desastres lamentavelmente classificados como sendo "naturais"  continuam sendo tratados como exceção. Na prática, são recorrência. O que se repete não é apenas o fenômeno climático, mas a ausência de políticas estruturantes capazes de reduzir vulnerabilidades.

Enquanto decisões estratégicas permanecerem subordinadas a prioridades circunstanciais, continuaremos contabilizando vítimas de tragédias que começaram muito antes da tempestade — começaram nos gabinetes, na falta de planejamento e na ausência de responsabilidade contínua.


NOTA EDITORIAL

Neste artigo sobre a tragédia em Juiz de Fora, a coluna "Contra o Caos" discute um ponto central: até que ponto é possível atribuir exclusivamente à natureza um desastre que ocorre em um cenário urbano marcado por vulnerabilidades conhecidas? O texto propõe uma reflexão sobre planejamento urbano, políticas habitacionais, fiscalização e gestão de risco, questionando a narrativa que transforma eventos previsíveis em fatalidades inevitáveis. A análise destaca que chuvas intensas fazem parte da realidade climática da região, mas a ausência de políticas públicas consistentes potencializa seus efeitos.

Mais do que apontar culpados, o artigo busca provocar um debate necessário sobre responsabilidade institucional, continuidade administrativa e o papel do jornalismo na cobrança por transparência. A tragédia é tratada não apenas como um episódio isolado, mas como reflexo de decisões acumuladas ao longo do tempo.

A proposta é clara...

"Compreender que desastres não começam quando a chuva cai, mas muito antes — nas escolhas feitas (ou não feitas) dentro dos gabinetes."


Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio 
📧 redacao@jornalgazetadorio.com.br




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