Marcio Curvello
Termômetro das ruas expõe desgaste social e desconfiança institucional no Brasil
Coluna analisa o desabafo recorrente de cidadãos e critica a centralidade de pautas periféricas no debate público
Termômetro das ruas expõe desgaste social e desconfiança institucional no BrasilSaio às ruas com o olhar de quem aprendeu a ouvir antes de escrever. O jornalista que observa, escuta e conecta pontos. E o que tenho ouvido, repetidas vezes, em diferentes cantos da cidade, não é um ruído isolado — é um coro.
É na feira livre, na fila do banco, na recepção de uma clínica odontológica. É no ponto de ônibus, no táxi, no balcão da padaria. A frase muda pouco, mas o sentimento é idêntico: “Não aguento mais esse país”.
Não se trata de militância organizada. Não é discurso ensaiado. É desabafo cru. É cansaço acumulado. É a percepção de que algo está fora do eixo — e que o cidadão comum paga a conta diariamente.
Quando a rua começa a repetir a mesma frase, o jornalista atento entende: o termômetro está subindo.
Enquanto isso, parte do debate público parece sequestrada por pautas que, sinceramente, pouco alteram a vida real das pessoas. A bola da vez é Virgínia. Depois, Vini Jr. Amanhã, outro nome ocupará o centro da arena digital. Escândalos pessoais, polêmicas fabricadas, discussões que inflamam redes sociais e distraem a atenção coletiva.
Mas pergunte a quem está na fila do banco se esse é o problema central do país.
O Brasil convive com cifras bilionárias — ou trilionárias — de endividamento. A máquina pública inchada, a insegurança jurídica, a sensação de impunidade, a descrença nas instituições. A economia patina. O custo de vida pressiona. O empreendedor sufoca. O trabalhador calcula cada centavo antes de chegar ao fim do mês.
E há algo ainda mais sensível: a percepção crescente de que os Poderes deixaram de exercer seus papéis de forma harmônica e independente. Quando decisões judiciais são interpretadas como alinhamentos políticos, quando críticas são rotuladas automaticamente como ataques à democracia, quando jornalistas enfrentam pressões veladas ou explícitas, o alerta precisa ser ligado.
Não se trata de torcer contra o país. Ao contrário. Trata-se de defender que as instituições funcionem com equilíbrio, transparência e responsabilidade. Trata-se de preservar a liberdade de imprensa como pilar essencial, não como concessão.
O problema não é Virgínia. Não é Vini Jr. Eles que resolvam suas próprias questões. O problema é estrutural. É fiscal. É institucional. É moral.
E o povo sente.
O Brasil não colapsa de um dia para o outro. Ele se desgasta aos poucos — na inflação persistente, na burocracia sufocante, na polarização permanente, na erosão da confiança.
O jornalista que anda pelas ruas aprende uma coisa simples: antes de qualquer indicador econômico, antes de qualquer pesquisa oficial, existe o termômetro humano. E ele não mente.
A pergunta que fica não é se o termômetro está subindo.
A pergunta é: quem iremos colocar na Presidência em 2026 para baixar a febre antes que ela se torne irreversível?
Eu sei quem. Mas, o voto é secreto.
Porém, haverão sinais.

Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio
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