Marcio Curvello

Mandarim nas Escolas

Entre identidade e geopolítica: quando a Língua Portuguesa perde espaço para a estratégia global do mandarim

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio | IA
Mandarim nas Escolas Entre identidade e geopolítica: quando a Língua Portuguesa perde espaço para a estratégia global do mandarim

O Rio de Janeiro oficializou, por meio da Lei nº 9.246/2026, a criação do Programa Municipal de Mandarim e Cultura Chinesa. A medida foi sancionada pelo prefeito Eduardo Paes e tem como autora a vereadora Luciana Novaes (PT). O texto autoriza o ensino do idioma em escolas públicas e centros comunitários, além da celebração de parcerias com instituições como o Instituto Confúcio.

A justificativa é estratégica: preparar jovens para um mercado global cada vez mais conectado à China, potência econômica e tecnológica do século XXI. Sob a ótica pragmática, o argumento parece coerente. O mandarim é uma das línguas mais faladas do mundo e pode representar diferencial competitivo em setores como comércio exterior, tecnologia e turismo.

Mas o debate que se impõe não é apenas econômico — é cultural, educacional e simbólico.

O que significa, para uma cidade que ainda enfrenta déficits estruturais de alfabetização e dificuldades persistentes na formação leitora, priorizar a expansão de um idioma estrangeiro enquanto a própria língua nacional apresenta fragilidades no processo de ensino-aprendizagem?

A Língua Portuguesa não é apenas instrumento técnico. É patrimônio civilizacional. É o idioma que carrega Camões, Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa. É a língua que molda nossa identidade, organiza nosso pensamento e sustenta nossa produção cultural.

Quando o poder público direciona energia política e institucional para a difusão de uma agenda linguística estrangeira sem antes consolidar a base nacional, ocorre um deslocamento simbólico. Não se trata de rejeitar o mandarim. Trata-se de discutir prioridades educacionais.

A geopolítica é real. O Brasil amplia relações comerciais com a China. O intercâmbio acadêmico cresce. Empresas buscam profissionais com fluência em idiomas estratégicos. É legítimo que o poder público observe esse cenário.

Entretanto, a escola pública não pode ser orientada exclusivamente por vetores externos. Sua função primordial é formar cidadãos com autonomia intelectual, pensamento crítico e domínio sólido da própria língua.

E aqui surge uma pergunta pertinente: se estamos falando em globalização e cooperação internacional, existem na China políticas públicas estruturadas que incentivem amplamente o ensino da Língua Portuguesa no ensino básico como estratégia geopolítica? Há um movimento simétrico, com o mesmo empenho institucional, para difundir o idioma brasileiro nas escolas chinesas?

A lógica da globalização pressupõe intercâmbio — e intercâmbio implica reciprocidade. Quando brasileiros vão à China, espera-se que aprendam e utilizem o mandarim. Isso é natural. Mas, se a relação é estratégica e bilateral, não seria igualmente razoável que, ao virem ao Brasil, cidadãos chineses também estejam preparados para se comunicar em português?

Se a integração é mútua, o esforço cultural deveria refletir essa bilateralidade. Caso contrário, o que se estabelece não é troca, mas adaptação unilateral — algo que se aproxima mais de assimetria estratégica do que de cooperação equilibrada.

Ensinar mandarim pode ser diferencial competitivo — assim como o inglês, o espanhol, o francês ou o italiano. Consolidar o domínio da Língua Portuguesa, porém, é condição básica de emancipação intelectual. Sem domínio pleno da língua materna, qualquer idioma adicional torna-se complemento — nunca fundamento.

O programa prevê ainda a difusão de elementos culturais chineses, como história, filosofia e artes marciais. Isso pode ampliar repertórios. Contudo, onde estão, com igual vigor político, os programas permanentes de valorização da literatura brasileira nas escolas municipais? Onde está o investimento contínuo na formação docente em língua portuguesa? Onde está a política robusta de incentivo à leitura nas periferias cariocas?

Uma nação segura de sua identidade ensina línguas estrangeiras sem diminuir o valor da própria. Uma cidade que respeita sua história não substitui símbolos: fortalece-os.

Mandarim pode ser ferramenta estratégica. Português é fundamento estrutural.

E nenhum projeto geopolítico se sustenta quando o alicerce cultural começa a ceder.


Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio 
📧 redacao@jornalgazetadorio.com.br


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