Marcio Curvello

Carnaval ou campanha eleitoral? Quando a Sapucaí vira palanque político

Recursos públicos, jingles históricos e decisões do TSE colocam o desfile da Acadêmicos de Niterói no centro de um debate sobre limites entre liberdade artística e propaganda eleitoral.

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio, Feito com IA
Carnaval ou campanha eleitoral? Quando a Sapucaí vira palanque político Carnaval ou campanha eleitoral? Quando a Sapucaí vira palanque político.

A essência do Carnaval sempre foi a liberdade criativa, a crítica social e a irreverência. A avenida é palco de metáforas, exageros e leituras simbólicas do Brasil. Mas o desfile da Acadêmicos de Niterói levanta uma questão que vai além da estética ou da disputa política: até que ponto o enredo ainda era Carnaval — e em que momento passou a se assemelhar a uma campanha eleitoral fora de época?

Segundo comentarista da TV Globo, o samba da escola foi “por encomenda”, sem a tradicional disputa interna que marca o processo democrático das agremiações. Para quem conhece os bastidores da assessoria de comunicação e das estratégias de marketing político, o alerta é imediato: quando narrativa, símbolos e slogans convergem com objetivos eleitorais claros, não se trata apenas de manifestação cultural — trata-se de comunicação estratégica.

O que se viu na Marquês de Sapucaí extrapolou o campo alegórico e entrou no terreno da propaganda. A presença de símbolos como o número 13 em alegorias e versos como “13 dias e 13 noites”, gestos explícitos de campanha (“fazendo o L”), além da palavra de ordem “sem anistia” incorporada ao samba, não são elementos neutros. São códigos políticos diretos, facilmente identificáveis pelo eleitorado.

A encenação também foi carregada de mensagens explícitas: a vitória e o impeachment de Dilma Rousseff, a ascensão de Michel Temer, a eleição e posterior derrota de Jair Bolsonaro, o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva e a dramatização da prisão de Bolsonaro, com a representação do ex-presidente como “Bozo”, o palhaço, dentro de uma cela.

Não se trata aqui de discutir simpatias ou antipatias partidárias. O ponto central é outro: quando personagens reais, potenciais candidatos em 2026 — com Lula e Eduardo Paes presentes na folia — são associados a narrativas de exaltação política em um espetáculo televisionado nacionalmente, o limite entre expressão artística e promoção eleitoral torna-se, no mínimo, nebuloso.

Outro aspecto sensível foi a representação da “família” como uma lata de ervilhas em conserva, estampada com a imagem de pai, mãe e filhos, rotulada como produto industrial, fabricada pelo tosco discurso ideológico do anti-conservadorismo. A crítica simbólica pode ser legítima no campo artístico, mas a forma como foi apresentada sugere mais do que sátira: indica confronto ideológico direto com um segmento do eleitorado.

Até aqui, o debate poderia permanecer no campo simbólico. Mas ele se amplia quando entram os números.

Segundo informações divulgadas, os recursos que financiaram o espetáculo tiveram origem pública: R$ 1 milhão da Embratur, agência federal vinculada ao governo Lula; R$ 2,15 milhões do Estado e da Prefeitura do Rio; e R$ 4 milhões da Prefeitura de Niterói. O argumento formal é que os valores foram repartidos entre as escolas. Porém, juridicamente, o ponto central não é apenas o rateio — é a finalidade.

Quando o homenageado é o próprio chefe do Executivo federal e o conteúdo reproduz jingles históricos de campanha — “Olé, olé, olé, olá, Lula, Lula” — além da repetição explícita do número da urna e da incorporação de slogans políticos ao samba, a análise ultrapassa a cultura e ingressa no campo eleitoral.

Houve ainda alas inteiras dedicadas a programas de governo como Bolsa Família, ProUni e Minha Casa Minha Vida, além de bandeiras projetadas para 2026, como o fim da escala 6x1 e a taxação de bilionários. Isso é retrospectiva biográfica ou plataforma programática?

A comparação com 2022 é inevitável.

Em julho daquele ano, Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada e questionou o sistema eleitoral. Custo informado: R$ 12,2 mil. Resultado: inelegibilidade por oito anos, sob o entendimento de desvio de finalidade e abuso de poder político.

Em fevereiro de 2026, Lula é homenageado na Sapucaí. Jingle executado em rede nacional por cerca de 80 minutos. Custo estimado: aproximadamente R$ 8 milhões em recursos públicos distribuídos às escolas. O TSE negou liminar para impedir o desfile. A justificativa predominante: liberdade artística.

A ministra Cármen Lúcia afirmou que a Justiça “não está dando salvo-conduto” e que o processo segue aberto. Mas a pergunta que permanece é simples: os critérios são os mesmos?

Outro ponto levantado envolve a relatoria da reclamação no TSE. A ministra responsável foi Estela Aranha, indicada por Lula, ex-assessora especial da Presidência e ex-secretária no Ministério da Justiça. Não houve declaração de suspeição. Ainda que tecnicamente possível, a discussão sobre aparência de imparcialidade torna-se inevitável. Justiça não precisa apenas ser justa — precisa parecer justa.

Ministros do Supremo afirmaram não haver motivo para censura prévia. E de fato, censura não é o caminho. Mas ausência de censura não encerra o debate ético. Liberdade de expressão não é salvo-conduto para transformar espetáculo cultural em plataforma de pré-campanha financiada pelo contribuinte.

É preciso perguntar: foi um enredo biográfico ou um jingle político? Foi um desfile carnavalesco ou uma estratégia comunicacional cuidadosamente estruturada? Quando slogans eleitorais são incorporados ao samba, quando adversários são caricaturados e aliados exaltados, quando recursos públicos sustentam a vitrine, a fronteira deixa de ser artística e passa a ser institucional.

O Carnaval sempre dialogou com a política — e isso é parte de sua grandeza histórica. Mas há diferença entre crítica social e mobilização eleitoral. Entre metáfora e marketing. Entre irreverência e propaganda.

Se o que vimos foi apenas expressão artística, que se aceite o debate público. Mas se houve uso deliberado da maior vitrine cultural do país para antecipar disputa eleitoral, então não estamos falando apenas de Carnaval — estamos falando de responsabilidade jurídica, igualdade de critérios e credibilidade das instituições.

A Sapucaí é palco da cultura brasileira. Transformá-la em comício, ainda que sob o verniz do samba, é um precedente que merece — no mínimo — reflexão.

Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio 
📧 redacao@jornalgazetadorio.com.br


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