Marcio Curvello
A Democracia Capturada: O Brasil entre o Poder Sem Freios e a Justiça Sem Credibilidade
Entre escândalos institucionais, politização da Suprema Corte e avanço do Estado sobre a vida privada, o Brasil vive uma crise de confiança sem precedentes
A Democracia Capturada: O Brasil entre o Poder Sem Freios e a Justiça Sem CredibilidadeDurante anos, consolidou-se no Brasil uma narrativa segundo a qual a democracia estaria ameaçada apenas por forças externas ao establishment político-judicial. Criou-se um discurso confortável: qualquer crítica às instituições seria automaticamente rotulada como “extremismo”, enquanto decisões cada vez mais arbitrárias seriam vendidas como atos de defesa da ordem constitucional. Mas a realidade de 2026 mostra um cenário muito mais complexo — e profundamente inquietante.
O país vive um ambiente de insegurança jurídica, descrédito institucional e corrosão moral do poder público. Escândalos envolvendo o INSS, com rombos bilionários e suspeitas de má gestão que atingem diretamente aposentados e pensionistas, revelam um Estado incapaz de proteger os mais vulneráveis. Paralelamente, a investigação sobre o Banco Master expôs relações perigosas entre o sistema financeiro e decisões de alto impacto político, levantando dúvidas sobre conflitos de interesse e a permeabilidade das instituições.
O Estado avança. Avança regulando discurso, monitorando redes, controlando opinião.
Enquanto isso, o 08 de janeiro de 2023 permanece como um divisor de águas. O episódio — tratado por muitos como tentativa de golpe — também passou a ser questionado por parcela significativa da sociedade que vê ali um “golpe forjado” ou, no mínimo, explorado politicamente para ampliar poderes excepcionais. A resposta institucional, marcada por prisões preventivas prolongadas, bloqueios patrimoniais generalizados e decisões monocráticas expansivas, reforçou a percepção de que o Judiciário deixou de ser árbitro para se tornar protagonista político.
O problema central não é a defesa da democracia — é a instrumentalização dela.
Temos hoje um Judiciário desmoralizado perante grande parte da população. Uma Suprema Corte percebida como politizada, com decisões que variam conforme o réu ou o alinhamento ideológico. A seletividade tornou-se regra silenciosa. Processos aceleram ou desaceleram conforme a conveniência do momento histórico. O discurso de neutralidade já não convence.
Nas universidades públicas, o pluralismo cede espaço à hegemonia ideológica. O ambiente acadêmico, que deveria ser o território do debate aberto e do confronto de ideias, transforma-se em espaço de militância homogênea, onde o contraditório é frequentemente hostilizado. A formação crítica dá lugar ao enquadramento moral.
E o Estado? O Estado avança.
Avança regulando discurso, monitorando redes, pressionando plataformas digitais, discutindo mecanismos de controle de opinião sob o argumento de combater a “desinformação”. A linha simbólica da porta de entrada das casas — que representa a liberdade individual — já não é tão clara quanto antes. A sensação de vigilância e tutela cresce.
Na cultura popular, artistas financiados com recursos públicos transformam palcos em palanques. Shows se convertem em comícios velados. A arte, que deveria ser expressão plural da sociedade, vira instrumento explícito de campanha política. E tudo isso sob o olhar seletivo de uma Corte que reage com rigor a uns e complacência a outros.
O resultado é um Brasil em estado de tensão permanente.
A democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Ela também se deteriora quando instituições deixam de inspirar confiança, quando o Judiciário abandona a sobriedade, quando a política captura a cultura, quando o Estado amplia seus limites sem freios claros.
Não se trata de defender extremos. Trata-se de reconhecer que o país entrou numa espiral de instabilidade moral e institucional.
Quando aposentados temem pelo futuro de seus benefícios, quando investidores desconfiam do sistema financeiro, quando cidadãos duvidam da imparcialidade da Suprema Corte, quando universidades deixam de ser espaços de pluralidade e quando a cultura se transforma em propaganda — algo está profundamente errado.
A democracia verdadeira exige limites ao poder — inclusive ao poder que se autodenomina guardião dela.
Se esses limites continuam sendo relativizados em nome de causas supostamente nobres, o Brasil corre o risco de descobrir, tarde demais, que o caos não nasce apenas da ruptura abrupta, mas também da normalização gradual do excesso.
Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio
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