Marcio Curvello

O futuro da barbárie começa na impunidade

Quando os pais e o Estado falham hoje, formam os criminosos que amanhã ocuparão o poder

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio
O futuro da barbárie começa na impunidade Quando os pais e o Estado falham hoje, formam os criminosos que amanhã ocuparão o poder

O caso do cão Orelha, em Santa Catarina, não é apenas um crime contra um animal indefeso — é um alerta grave sobre o tipo de sociedade que estamos formando ao escolher não punir com firmeza.

O que foi feito com o cão Orelha não pertence apenas ao passado recente, nem pode ser tratado como um episódio policial restrito a um inquérito local. Trata-se de um marco moral. Um divisor de águas que expõe, com brutal clareza, o preço que uma sociedade paga quando escolhe proteger agressores em vez de defender vítimas — sobretudo quando essas vítimas não têm voz.

Orelha era um cão comunitário, conhecido e cuidado por moradores da Praia Brava, em Florianópolis. Em janeiro de 2026, foi espancado brutalmente por quatro adolescentes. A violência foi extrema, deliberada e sem qualquer justificativa. Os ferimentos foram tão graves que não houve alternativa clínica: o animal precisou ser submetido à eutanásia. Ali não morreu apenas um cachorro. Morreu um símbolo de convivência, de cuidado coletivo e de humanidade mínima.

A tentativa de enquadrar o episódio como um “excesso juvenil” cai por terra quando as investigações avançam. O mesmo grupo é suspeito de ter tentado afogar outro cão, chamado Caramelo, jogando-o ao mar. O animal sobreviveu por acaso e acabou sendo adotado pelo delegado-geral de Santa Catarina. Esse dado é central. Ele revela padrão, repetição e método. Não se trata de impulso isolado, mas de comportamento violento reiterado.

Ainda assim, por decisão judicial, a identidade dos adolescentes permanece sob sigilo, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, sob o argumento de evitar retaliações e o chamado “linchamento virtual”. A proteção legal existe e tem razão de ser. O problema surge quando essa cautela se transforma em blindagem moral e quando a gravidade do crime parece se diluir no formalismo jurídico.

A cronologia dos fatos aprofunda esse desconforto. Logo após o crime, dois dos adolescentes viajaram para os Estados Unidos. Retornaram ao Brasil apenas em 29 de janeiro de 2026, desembarcando em Guarulhos, onde tiveram seus celulares apreendidos para perícia pela Polícia Civil. A sequência levanta questionamentos legítimos sobre afastamento estratégico, tempo ganho e sensação de impunidade — elementos que, somados, corroem a confiança social na responsabilização.

As investigações também alcançam adultos diretamente ligados aos jovens. Dois empresários e um advogado, pais e um tio de um dos adolescentes, são suspeitos de tentar coagir o porteiro do prédio, testemunha considerada peça-chave no caso. Quando adultos agem para interferir na apuração, o problema deixa de ser apenas juvenil e passa a ser estrutural. A violência deixa de ser um ato isolado e se revela como prática sustentada por redes de proteção.

Há, nesse ponto, uma ilusão confortável — e profundamente perigosa — de que a crueldade juvenil é passageira, um desvio corrigível pelo tempo. A história social mostra o contrário. Violência não enfrentada se transforma em caráter. O que não é corrigido vira método. O que não gera consequência se consolida como prática aceitável.

Os jovens envolvidos neste crime não desaparecerão. Eles crescerão, circularão, estudarão e trabalharão. E, se nada for feito agora, ocuparão espaços de poder e decisão. Serão políticos, elaborando leis. Magistrados, interpretando a Justiça. Profissionais da saúde, decidindo quem merece cuidado. E, ironicamente, até médicos veterinários, formados sem empatia pelo sofrimento animal.

Isso não é provocação retórica. É constatação lógica. Quem aprende cedo que a crueldade não gera consequências reais internaliza a certeza de que o sistema sempre encontrará um álibi. Aprende que a dor do outro é negociável. Aprende que a responsabilidade pode ser empurrada para depois.

Quando pais escolhem acobertar em vez de responsabilizar, eles lançam o primeiro alicerce da impunidade. Quando o Estado aceita esse comportamento e responde com cautela excessiva, ele conclui a obra. A Justiça, quando hesita, não é neutra. Ela educa. E, neste caso, educa mal. Ensina que o sofrimento de um ser indefeso pode ser relativizado se o agressor estiver protegido por idade, silêncio ou conveniência jurídica.

O Estatuto da Criança e do Adolescente é uma conquista civilizatória incontestável. Mas não foi criado para funcionar como absolvição automática nem como escudo moral para crimes bárbaros. Quando aplicado sem rigor proporcional à gravidade do ato, deixa de proteger e passa a blindar. Não se trata de vingança social. Trata-se de responsabilidade. Medidas socioeducativas só cumprem seu papel quando são claras, firmes e compatíveis com a violência praticada. Do contrário, tornam-se apenas um ritual burocrático de esquecimento.

Diante de tudo isso, a pergunta se impõe — e incomoda:

O que esperar de uma sociedade que não pune com firmeza quem comete crimes contra animais indefesos?

Que tipo de ética pública pode emergir de um sistema que ensina, desde cedo, que a crueldade é negociável? Que decisões serão tomadas amanhã por adultos que ontem aprenderam que ferir, mutilar e matar não gera consequências reais?

O crime cometido contra Orelha não pode permanecer restrito a Santa Catarina. Ele precisa ser levado ao tribunal moral da sociedade brasileira. Precisa ser debatido, lembrado e cobrado. Não como espetáculo, mas como advertência. Porque quando o país trata esse tipo de crime como “caso localizado”, está, na prática, autorizando sua repetição em escala nacional.

Orelha não foi apenas uma vítima.

Foi um aviso.

Ignorá-lo é aceitar que o futuro será comandado por adultos que nunca aprenderam o valor da vida — nem mesmo da mais indefesa.



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