Marcio Curvello

A cortina de fumaça do poder e os escândalos que não podem ser lembrados

Quando alguns casos viram espetáculo e outros desaparecem no arquivo morto da conveniência institucional

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio
A cortina de fumaça do poder e os escândalos que não podem ser lembrados A cortina de fumaça do poder

Escândalos seletivos, silêncios convenientes e a engrenagem que protege o poder

Há perguntas que não surgem por acaso. Elas aparecem quando o discurso oficial começa a ranger, quando as narrativas se encaixam bem demais e quando o silêncio passa a fazer mais barulho do que qualquer denúncia. Uma dessas perguntas, hoje, é inevitável: e os R$ 129 milhões pagos em serviços advocatícios a uma certa mulher, ligada a um outro certo ministro do Supremo? Por que esse tema simplesmente evaporou do debate público, sem esclarecimentos robustos, sem apuração aprofundada, sem desfecho?

Enquanto os holofotes se concentram sobre a atuação de Dias Toffoli no caso do Banco Master — com direito a viagens, resorts, encontros privados e decisões que levantam questionamentos jurídicos legítimos — outro assunto, igualmente grave, e que envolve também o banco Master, foi sendo discretamente empurrado para fora da arena pública. Não houve conclusão. Não houve explicação convincente. Não houve desmentido cabal. Houve silêncio. E silêncio, em política e no Judiciário, quase nunca é neutro. Quase sempre incinerado.

A crise que envolve Toffoli no Supremo Tribunal Federal não é um episódio isolado. Ela se insere numa trajetória marcada por decisões controversas, relações políticas sensíveis e uma tensão permanente entre a autoridade da toga e os limites institucionais que deveriam balizar sua atuação. Desde sua indicação ao STF, em 2009, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro carregou consigo o peso da proximidade política. Não se trata de negar a legalidade formal da nomeação, mas de reconhecer que, no Supremo, a aparência de imparcialidade é tão vital quanto a imparcialidade em si.

O caso do Banco Master escancarou esse dilema. Ao assumir a relatoria, atrair o inquérito para o STF, impor sigilo amplo, interferir na dinâmica investigativa e manter relações sociais e logísticas com pessoas direta ou indiretamente ligadas aos investigados, o ministro produziu um efeito corrosivo: transformou uma investigação de interesse público em um campo minado de suspeitas institucionais. Não é irrelevante que familiares tenham integrado a sociedade de um resort frequentado pelo próprio ministro, tampouco que o local tenha servido como espaço de recepção para empresários e políticos influentes. A frequência dessas estadias e o custo público envolvido na segurança não são “ruídos” — são sinais.

É nesse contexto que o padrão começa a se repetir com frequência desconfortável: escolhe-se um escândalo para ocupar o centro do palco, enquanto outros são tratados como nota de rodapé, quando muito. O debate público passa a funcionar como uma peça cuidadosamente roteirizada, em que a indignação tem alvo certo e prazo de validade. A pergunta que se impõe não é conspiratória; é lógica: alguém foi jogado no fogo para proteger quem segura os dossiês?

O problema não está apenas nos fatos isolados, mas na arquitetura de poder que permite essa assimetria de tratamento. Quando denúncias envolvendo cifras milionárias, relações familiares sensíveis e possíveis conflitos de interesse simplesmente não avançam, enquanto outros casos são explorados até a exaustão, constrói-se uma percepção devastadora: a Justiça não é cega — ela escolhe onde olhar.

A defesa institucional feita pelo presidente do STF, Edson Fachin, ao afirmar que a Corte não se curva a pressões, é compreensível. O Supremo não pode ser refém de campanhas políticas nem de linchamentos midiáticos. Mas há uma diferença fundamental entre proteger a instituição e blindar condutas que, no mínimo, exigiriam prudência extrema — ou a declaração de suspeição. Instituições não se fortalecem com silêncio seletivo; fortalecem-se com transparência, coerência e previsibilidade.

A defesa pública feita por colegas como Gilmar Mendes ajuda a sustentar a narrativa da normalidade institucional. Mas normalidade não se decreta — se constrói. E ela depende de ritos claros, distanciamento pessoal e respeito rigoroso às competências do Ministério Público e da Polícia Federal, sobretudo em casos que envolvem o sistema financeiro e bilhões de reais.

Quando se cala sobre um pagamento de R$ 129 milhões e se fala sem parar de outro caso, a mensagem que chega à sociedade é simples — e perigosa: há temas proibidos, pessoas intocáveis e verdades inconvenientes demais para serem investigadas a fundo. Nesse cenário, pouco importa se a legalidade formal será confirmada ao final. A credibilidade já foi arranhada.

O Brasil vive uma crise profunda de confiança: nas instituições, no sistema de Justiça, no discurso oficial. Cada assunto que some sem explicação aprofunda essa crise. Cada escândalo substituído por outro, sem que o anterior tenha sido esclarecido, reforça a sensação de que o jogo não é jogado com as mesmas regras para todos.

A democracia não morre apenas por ataques diretos. Ela se desgasta lentamente, corroída pela seletividade, pelo silêncio estratégico e pela naturalização do “deixa isso pra lá”. Questionar não é atacar o Supremo. Questionar é exercer cidadania. E ignorar perguntas legítimas não protege a instituição — protege o poder.

No fim, a história não perguntará quem controlou melhor a narrativa do momento. Ela perguntará quem teve coragem de não aceitar o silêncio como resposta. Quando a toga pesa mais que a Constituição, quem perde não é um ministro. É o país.



LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.