Marcio Curvello
A festa tá marcada! Comunicadores do Caos convidados.
A nova ofensiva de aparelhamento na EBC expõe a conversão da comunicação pública em trincheira ideológica
A festa tá marcada! Comunicadores do Caos convidados. O Brasil assiste, mais uma vez, ao velho roteiro se repetir. A caneta muda de mãos, o discurso muda de tom, mas o método permanece idêntico: ocupar, aparelhar, domesticar e transformar estruturas públicas em instrumentos de poder. A Empresa Brasil de Comunicação, que deveria servir ao país inteiro, virou palco de uma festa cujo ingresso é pago pelo contribuinte, mas cujo buffet é servido exclusivamente aos íntimos do governo.
As novas contratações de Juca Kfouri, José Trajano e Lúcio de Castro — anunciadas com alarde pelo presidente da EBC, André Basbaum — não são episódios isolados; são sintomas. A esquerda brasileira, veterana na arte de confundir Estado com projeto ideológico, parece determinada a reestabelecer no país não um sistema de comunicação pública, mas um ministério informal da opinião — onde a pluralidade é decorativa, e a divergência, indesejável.
Nenhum desses profissionais é irrelevante. Pelo contrário: são nomes com história, experiência e currículo. Mas é precisamente por isso que a movimentação merece ainda mais cuidado. Quando vozes tão marcadamente alinhadas a um espectro político voltam ao centro de uma comunicação financiada por todos nós, o que se compra não é talento. É narrativa. É lealdade ideológica. É o velho pacto não escrito que garante: “O Estado é nosso, e quem discorda que espere o próximo governo”.
A postagem de Basbaum, celebrando as “lendas”, diz muito pelo tom e pouco pelo conteúdo. “Temos um plano!”, escreveu. A frase, que deveria inspirar confiança, soa mais como aviso. Plano para quê? Para quem? Em torno de qual projeto de país? O plano, até aqui, parece ser apenas o de reinstalar uma bolha afetiva dentro de uma emissora que deveria operar em favor do interesse público.
A escolha dos nomes não é acidental. Kfouri, Trajano e Castro formam um trio histórico do jornalismo esportivo — e também um trio politicamente homogêneo, militante, repetitivo em seus ataques a adversários ideológicos e sistematicamente agressivo com qualquer figura que simbolize a outra metade do país. Quando uma empresa pública decide contratar três profissionais que, além de experientes, são também notórios militantes de esquerda, a mensagem é clara: não há interesse em equilibrar o debate, mas em consolidar um polo.
Eis o dilema ético que se impõe: a EBC pertence ao contribuinte, não ao governante da vez. O dinheiro que paga esses salários não vem da militância, vem da população — inclusive daquela parte que é insultada regularmente pelos mesmos jornalistas agora contratados, chamados às vezes de ignorantes, outras de cúmplices, em certos momentos até de “genocidas” por extensão eleitoral. O contribuinte, afinal, está financiando o emprego daqueles que o desprezam.
A chegada de Datena à EBC, anunciada dias antes, completa a equação. O governo tenta equilibrar o verniz da pluralidade trazendo figuras com diferentes históricos partidários, mas o gesto não resiste à análise. Datena, há décadas oscilando entre candidaturas frustradas e anúncios de aposentadoria que nunca se concretizam, é o curinga perfeito para legitimar a narrativa de “amplitude”. Serve ao governo pela popularidade, não pela independência. Serve ao projeto, não ao país.
A comunicação pública brasileira vive um paradoxo: nasceu para correr paralela à imprensa comercial, garantindo acesso, diversidade e interesse coletivo. Mas, desde sua origem, virou propriedade exclusiva da esquerda. A EBC nunca foi de fato pública; sempre foi governamental. E, enquanto isso não mudar, ela continuará sendo um espelho distorcido do país, refletindo apenas quem ocupa o Palácio.
O problema não são os nomes. É o padrão. É a lógica. É a incapacidade do Estado brasileiro de resistir à tentação do aparelhamento. É o vício histórico de confundir jornalismo com propaganda. É o uso de dinheiro público para alimentar projetos privados de poder.
Enquanto isso, o brasileiro comum — aquele que paga impostos, mas não vê retorno — continua condenado ao papel de figurante de uma ópera política onde o enredo é sempre o mesmo: os donos do palco mudam, mas a plateia continua presa no mesmo assento desconfortável de sempre.
A festa está marcada. Os comunicadores do caos foram convidados. E aceitaram. A pergunta que falta é: quem vai apagar a luz quando o país perceber que não há nada para comemorar?
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