Marcio Curvello

O Imperador que a República não soube honrar

A morte de Dom Pedro II revelou ao mundo a verdadeira grandeza do monarca que o Brasil expulsou

Gazet.AI / Jornal Gazeta do Rio.
O Imperador que a República não soube honrar Funeral de Dom Pedro II — As honras que o Brasil recusou, o mundo ofereceu

Ao revisitar a madrugada de 5 de dezembro de 1891, percebo que ali não morreu apenas um imperador — ali morreu uma possibilidade de Brasil. Dom Pedro II partiu em silêncio, longe da pátria que serviu por toda a vida, enquanto o regime que o depôs tentava abafar até mesmo o luto do povo. É impossível não comparar: enquanto Paris se curvava diante de sua grandeza, oferecendo-lhe honras de Chefe de Estado, o Brasil republicano se perdia em sua própria insegurança, temendo a memória daquele que expulsou. Quanto mais mergulho nesses acontecimentos, mais claro se torna que a morte de Pedro II revelou um país órfão — órfão de estabilidade, de projeto, de liderança e, sobretudo, de grandeza.

O IMPERADOR QUE A REPÚBLICA NÃO SOUBE HONRAR

Há episódios na história que não apenas encerram um ciclo, mas revelam — com a nitidez brutal dos fatos — o tamanho do erro que uma nação pode cometer. A madrugada de 5 de dezembro de 1891, no quarto modesto do Hotel Bedford, em Paris, é um desses momentos. Ali morreu Dom Pedro II, o monarca que o Brasil republicano exilou às pressas, à sombra da madrugada e sem qualquer honra, como se a história pudesse ser varrida para baixo do tapete. O que ninguém imaginava é que, ao expulsar o imperador, era o Brasil que se exilava de si mesmo.

A cena final, silenciosa, íntima e digna, contrasta violentamente com o tumulto político, a instabilidade e as rupturas que a jovem República brasileira produziria a partir dali — rupturas que, de tão profundas, ainda ecoam no presente.

Dom Pedro II morreu cercado da família, dos poucos servidores que permaneceram fiéis até o fim e de estrangeiros que o reverenciavam como um dos soberanos mais cultos, íntegros e civilizados do século XIX. No Brasil, porém, o novo regime tentava impedir até mesmo o luto. As autoridades republicanas proibiam homenagens, arrancavam bandeiras postas a meio pau e reprimiam manifestações espontâneas de dor popular. Era o retrato da insegurança: um governo recém-nascido que temia até um morto.

Enquanto a República escondia o rosto, a França o descobria — e o revelava ao mundo.

As honras que o Brasil recusou, o mundo ofereceu

Poucas horas após a morte, ministros franceses, diplomatas, intelectuais, militares, artistas e chefes de Estado se dirigiram ao Hotel Bedford. Mais de dois mil telegramas chegaram naquele único dia. A França republicana ignorou as pressões brasileiras e decidiu prestar ao imperador deposto um funeral digno de um Chefe de Estado — algo que o próprio Brasil recusara.

Em Paris, chovia e fazia frio. Mesmo assim, mais de 300 mil pessoas acompanharam o cortejo. O coro de Gabriel Fauré cantou o Kyrie de Beethoven; 80 mil militares franceses, todos em gala, prestaram continência ao morto brasileiro. As coroas vinham de reis, rainhas, escritores, sábios, de um “negro brasileiro em nome de sua raça”, dos Voluntários da Pátria, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

De todas as ausências, apenas uma chamou atenção: o Brasil.

O governo republicano não apenas ignorou o funeral — tentou impedir sua grandiosidade, como se a memória pudesse ser interditada por decreto.

O contraste doía: Dom Pedro II, respeitado pelas maiores potências do mundo, era oficialmente silenciado por seu próprio país.

O erro fundador da República

A morte do imperador desnudou a fragilidade política do novo regime. Ao proibir homenagens, o governo republicano revelou que não confiava na própria legitimidade. Temia que qualquer demonstração de respeito ao monarca reacendesse o fogo da monarquia — e talvez temesse, acima de tudo, a comparação inevitável: o que era Pedro II, e o que era a República nascente?

A resposta, na época, era devastadora. Em menos de dois anos após o golpe de 1889, o Brasil mergulhava em crises políticas, brigas internas, disputas mesquinhas e instabilidade institucional — sintomas que atravessariam todo o século XX e chegariam intactos ao XXI. O reinado de Pedro II, ao contrário, fora marcado por estabilidade, continuidade administrativa, avanços científicos, culturais e diplomáticos que colocaram o país no mapa do mundo civilizado.

É significativo que muitos dos antigos adversários republicanos tenham lamentado sua morte. Quintino Bocaiuva, um dos mais ferrenhos articuladores do 15 de Novembro, reconheceu:

“O mundo inteiro prestou homenagens que o Sr. Dom Pedro de Alcântara mereceu por suas virtudes de grande cidadão.”

A frase, publicada em 1891, soa hoje como uma confissão tardia: a República nascera carregando um peso que nunca conseguiu sustentar — o peso de substituir um estadista por improvisadores.

O imperador que o povo não esqueceu

Apesar da censura, o luto se espalhou pelo país. Teatros fecharam, comerciantes hastearam bandeiras a meio pau, institutos científicos que ele fundara prestaram tributos, e missas foram celebradas do norte ao sul. A população negra, em especial, via no imperador e na monarquia símbolos de libertação e esperança — elo que nem a República conseguiu romper. O que se formava ali era o que os historiadores chamariam de nostalgia do Império: a percepção crescente de que o Brasil perdera, não apenas um governante, mas um projeto de país.

Entre dois mundos

Dom Pedro II queria ser enterrado no Brasil. Não pôde. Deixou apenas um bilhete com terra da pátria: “Desejo que seja posta no meu caixão.”

Só em 1921 — 30 anos depois — a República permitiu que seu corpo retornasse. Quando os despojos chegaram ao Rio, multidões reverenciaram o imperador que jamais deixara de ser, para o povo, o “Pai do Brasil”.

Hoje, ao revisitar a história, o contraste permanece incômodo: 

O Brasil que expulsou seu maior estadista continua procurando, até hoje, a estabilidade que ele ofereceu; a República que nasceu de um golpe jamais alcançou a grandeza do imperador que depôs.

A morte de Dom Pedro II não encerra apenas um ciclo político: revela um trauma não resolvido. Mostra que, ao derrubarem o monarca, aqueles homens de 1889 não derrubaram apenas uma forma de governo — derrubaram um futuro possível.

Um futuro que talvez tivesse sido mais estável, mais culto, mais próspero e, quem sabe, mais brasileiro.

*Marcio Curvello, é jornalista e fotógrafo carioca. Monarquista por convicção e estudioso da História do Brasil. Editor-chefe do Jornal Gazeta do Rio.


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