Marcio Curvello

O silêncio que fratura a instituição

A omissão do comandante do Exército diante da prisão de generais expõe a maior crise moral da caserna desde o golpe dos republicanos

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O silêncio que fratura a instituição A omissão do comandante do Exército diante da prisão de generais

A ausência de liderança em um momento decisivo aprofunda tensões históricas, fragiliza a tropa e revela o vazio da República diante dos homens que a serviram.

O SILÊNCIO QUE FRATURA A INSTITUIÇÃO

A prisão de generais e de um almirante nesta semana desencadeou uma onda de instabilidade institucional que vai muito além do aspecto jurídico. O episódio materializa uma crise moral no coração das Forças Armadas, expõe fraturas profundas da República e revela a incapacidade do Estado brasileiro de lidar com seus próprios fantasmas históricos. Oficiais com mais de quatro décadas de serviço, homens que dedicaram vidas inteiras ao país, foram conduzidos à prisão sob intensa pressão política e narrativa — e nada marcou tão profundamente esse momento quanto o silêncio do Comandante do Exército, General Tomás Paiva. Um silêncio absoluto. Um silêncio que, longe de transmitir prudência, transmite ausência. Silêncio que não acalma — inquieta. Silêncio que não protege — expõe. Silêncio que não representa — abandona. No universo militar, silêncio não é neutralidade: é posicionamento. E a ausência de qualquer manifestação institucional em um momento tão crítico se converteu em símbolo de abandono. A tropa sentiu. A instituição sentiu. O país percebeu.

As Forças Armadas sempre se sustentaram por valores imateriais, porém profundamente reais: honra, hierarquia, lealdade, camaradagem, coesão. Esses valores são tão estruturantes quanto qualquer regulamento. São eles que mantêm a instituição unida em crises, guerras, conflitos e tensões internas. Quando homens desse calibre são atingidos por uma decisão extrema, espera-se que a liderança máxima se manifeste — não para interferir no Poder Judiciário, mas para reafirmar princípios essenciais como o devido processo legal, a presunção de inocência e o respeito à história institucional daqueles que serviram ao Estado por décadas. Mas nenhuma palavra veio. Nenhum gesto. Nenhuma presença moral. E a ausência de voz, justamente quando ela é mais necessária, torna-se fratura aberta no coração da instituição.

Essa postura cria uma contradição que não pode ser ignorada. Tomás Paiva fala como herdeiro dos valores de Duque de Caxias, patrono da unidade e da pacificação, mas age, aos olhos de muitos, como alguém que repete o silêncio que antecedeu as rupturas de 1889, quando Marechal Deodoro da Fonseca inaugurou uma República marcada não por consenso, mas por improviso, pressão e descontinuidade. A comparação é simbólica, não literal — mas o simbolismo pesa. Liderança não é apenas comando técnico; é responsabilidade moral. E a ausência dessa responsabilidade, em momentos de crise, é percebida como ruptura interna. A tropa, acostumada a reconhecer firmeza, clareza e presença nos instantes críticos, encontrou apenas um vazio institucional.

A crise atual não pode ser lida de forma isolada. Ela dialoga com mais de 60 anos de disputa ideológica no Brasil. Desde 1964, um combate simbólico se instalou entre diferentes projetos de país, e a presença militar tornou-se objeto de disputa narrativa. Universidades, setores culturais, movimentos políticos e instituições diversas consolidaram interpretações contraditórias sobre o papel das Forças Armadas na história recente. Essa disputa não desapareceu — apenas mudou de forma. Hoje, ressurge no tratamento dado às prisões, nas leituras que tentam reinterpretar o passado militar e nos discursos que transformam episódios individuais em capítulos de uma revanche histórica tardia. Assim, as prisões desta semana não são vistas por muitos como fatos isolados, mas como peças de um conflito ideológico não resolvido que atravessa gerações, alimentando divisões que o país insiste em manter abertas.

O silêncio do comandante amplia ainda mais essa percepção. Em crises graves, não basta administrar; é preciso liderar. Uma declaração institucional moderada, reafirmando valores e princípios, teria sido suficiente para transmitir à tropa um sinal de presença moral. Mas nenhuma palavra veio. E quando falta presença moral, falta tudo. Uma instituição armada enfraquece menos por pressão externa do que por desgaste interno — e esse desgaste nasce, quase sempre, da ausência de voz em momentos decisivos. A caserna, que sempre encontrou segurança na figura de seus líderes, agora se vê diante de uma liderança que se ausenta quando mais deveria se fazer presente.

A República brasileira, desde sua origem, convive com a contradição de trair seus próprios pilares. Nascida de um golpe improvisado, cresceu envolta em crises sucessivas e nunca conseguiu estabilizar plenamente sua relação com as Forças Armadas. Hoje, repete o padrão: expõe, julga, condena e afasta homens que a serviram durante décadas, enquanto as instituições que deveriam protegê-los permanecem em silêncio. A história se repete porque o país jamais resolveu suas fraturas originais. O que deveria ser uma nação madura, capaz de sustentar suas instituições e honrar seus próprios homens, ainda se comporta como uma República hesitante, fragmentada, presa a narrativas que mudam conforme o vento político.

O resultado é um país em suspenso. A tropa sente o baque. A instituição sente o vazio. A sociedade percebe o descompasso. E a República, mais uma vez, demonstra sua incapacidade de preservar aqueles que compõem seus próprios alicerces. A crise que presenciamos não é apenas jurídica — é moral, institucional e histórica. Quando a liderança se ausenta na hora em que é mais necessária, não sobra nada além da sensação de que o caos avança porque quem deveria enfrentá-lo escolheu o silêncio. E quando a instituição sente essa ausência, a fratura não é apenas momentânea — ela se torna parte da memória, da cultura e da identidade da própria força.


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