Marcio Curvello
De Carlos Gomes a Oruam — o declínio da cultura musical no Brasil
Da ambição estética e do rigor técnico à celebração da precariedade, a música brasileira revela como o critério artístico foi substituído por discurso, engajamento e algoritmo.
De Carlos Gomes a Oruam – o declínio da cultura musical no Brasil A história da música brasileira não é uma linha evolutiva contínua rumo à diversidade e à sofisticação. Ao contrário do discurso confortável que domina salas universitárias e cadernos culturais, o que se observa é um processo de rebaixamento estético progressivo, legitimado por uma aliança silenciosa entre mercado, academia e militância cultural. Do rigor formal e da ambição artística de Carlos Gomes, passamos a uma era em que a precariedade virou identidade, a repetição virou virtude e a pobreza técnica passou a ser defendida como expressão “autêntica” do povo. O resultado atende hoje por nomes como Oruam, elevado a símbolo de uma geração que já não exige da música nem complexidade, nem transcendência.
Carlos Gomes não era apenas um compositor. Era um projeto de país. Sua obra dialogava com a tradição europeia sem submissão, buscava excelência técnica, estrutura, narrativa e ambição estética. O Brasil do século XIX, ainda em formação, compreendia que cultura não era ornamento — era instrumento civilizatório. Produzir arte de alto nível era afirmar que o país podia ocupar espaço no mundo com dignidade simbólica.
Esse entendimento atravessou o tempo e se manifestou, em graus distintos, em Villa-Lobos, Radamés Gnattali, Tom Jobim, Vinicius de Morais, Elis Regina, Powell, João Gilberto, Edu Lobo, entre tantos outros ícones que elevaram o nível de nossa cultura musical. Mesmo quando populares, esses artistas dominavam linguagem, harmonia, forma, arranjo, letra. A música popular brasileira era popular sem ser simplória. Era acessível sem abrir mão de profundidade.
A ruptura não acontece apenas por ação do mercado. Ela se consolida quando a academia abdica do papel crítico. A partir dos anos 1990, intensifica-se um fenômeno perigoso: o abandono do juízo estético em favor de um relativismo cultural absoluto. Tudo passa a ser “expressão legítima”. Toda crítica vira “elitismo”. Técnica passa a ser vista como opressão. Complexidade, como exclusão. A música deixa de ser analisada pelo que é e passa a ser defendida pelo que representa ideologicamente.
A universidade, que deveria formar ouvintes críticos e artistas conscientes, opta por romantizar a precariedade. Letras pobres passam a ser “crônicas urbanas”. Repetição vira “minimalismo”. Ruído vira “linguagem”. A ausência de melodia, harmonia ou estrutura é tratada como gesto político. O critério deixa de ser musical e passa a ser sociológico — muitas vezes reduzido a slogans.
Nesse ambiente, o mercado agradece. O algoritmo não exige talento, exige engajamento. O refrão não precisa emocionar, apenas viralizar. A letra não precisa dizer algo novo, basta repetir palavras de impacto. A música deixa de ser obra e vira produto descartável. E quando alguém aponta o empobrecimento, é acusado de saudosismo, conservadorismo ou preconceito.
Oruam não é a causa do problema. É o sintoma final. Sua produção não propõe ruptura estética, não amplia linguagem, não dialoga com tradição alguma. Ela apenas ocupa o espaço vazio deixado por uma cultura que desistiu de exigir. Sua legitimação não vem da música em si, mas do discurso que a envolve: identidade, território, resistência — conceitos importantes, mas insuficientes para justificar a indigência artística.
O drama não é moral. É cultural. Não se trata de criminalizar gêneros, periferias ou juventudes. Trata-se de reconhecer que a música brasileira foi rebaixada de linguagem artística a ruído funcional, e que isso não ocorreu por acaso. Foi um processo incentivado por quem confundiu inclusão com abdicação de critérios.
A verdadeira inclusão cultural não está em dizer que tudo é bom. Está em dar acesso à complexidade, em formar repertório, em ampliar horizontes. Negar isso é condenar gerações inteiras a um consumo cultural raso, sem passado e sem futuro.
Do teatro lírico de Carlos Gomes ao algoritmo de Oruam, o Brasil não perdeu apenas sofisticação musical. Perdeu a coragem de dizer que arte exige esforço, estudo, escuta e ambição. Enquanto a academia continuar tratando qualquer crítica como opressão, e qualquer pobreza estética como virtude, a decadência seguirá sendo chamada — cinicamente — de diversidade.
E a música brasileira, que já foi linguagem de mundo, continuará sendo apenas barulho de fundo.
📲 Curta nossas redes sociais! Acompanhe o Jornal Gazeta do Rio no Instagram e Facebook para ficar por dentro das principais notícias, entrevistas e bastidores do Rio.
🗣️ Deixe o seu comentário! Queremos saber a sua opinião! Participe da conversa e compartilhe com a gente o que achou desta matéria. Seu comentário é muito importante para nós.





