Marcio Curvello
A República que traiu suas origens e perdeu seus próprios Homens
Da ruptura de 1889 à prisão de líderes militares em 2025, o Brasil vive uma longa história de instabilidade, inversão moral e silêncio institucional.
A República que traiu suas origens e perdeu seus próprios Homens Da traição de Marechal Deodoro a Dom Pedro II ao silêncio do Comandante do Exército diante da prisão de generais respeitados, uma linha histórica de fraturas expõe o esgotamento moral da República.
O Brasil carrega uma ferida que nunca cicatrizou: a forma como a República nasceu. Em 15 de novembro de 1889, Marechal Deodoro da Fonseca — monarquista convicto, amigo pessoal de Dom Pedro II e jamais opositor declarado do Imperador — depôs a Monarquia em um golpe articulado dentro dos quartéis, conduzido por poucos e sem consulta ao povo. O país dormiu monárquico e acordou republicano. Foi uma ruptura política, mas, sobretudo, moral. O pacto histórico que unia a população ao Imperador, reconhecido mundialmente por sua integridade, cultura, visão de Estado e absoluta ausência de escândalos, foi quebrado de forma abrupta, sem debate e sem legitimidade popular.
Daquele instante em diante, a República passou a carregar uma marca que a persegue há mais de um século: a substituição silenciosa do dever pelo interesse, da ética pela narrativa, da estabilidade pela disputa de poder. Nada amadureceu de maneira orgânica. Tudo foi improvisado. As promessas republicanas — de modernização, moralidade e verdadeira representação popular — não só fracassaram como se tornaram slogans vazios diante da realidade concreta de instabilidade, autoritarismos intermitentes, rupturas sucessivas e crises institucionais que moldaram o país desde então.
O Brasil independente, que poderia ter avançado com segurança por meio de uma transição madura, viu o novo regime se estruturar sobre bases frágeis: presidentes depostos, tensões militares constantes, escândalos políticos, instituições instáveis e uma sociedade dividida entre narrativas. A falta de raízes sólidas transformou o país em terreno fértil para versões seletivas dos fatos, para a moral variável e para julgamentos moldados conforme o clima político de cada época.
Em 2025, essa histórica rachadura volta a cobrar seu preço. A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro — capitão reformado do Exército — determinada pelo ministro Alexandre de Moraes reacende a velha ferida moral que acompanha a República desde sua origem. Bolsonaro, para milhões, simbolizava hierarquia, disciplina, conservadorismo e defesa de valores tradicionais; agora, se vê encarcerado a partir de uma narrativa de um suposto plano golpista, ainda sem julgamento definitivo e já envolto em condenações públicas antecipadas.
Mas Bolsonaro não está sozinho. A República, mais uma vez, devora seus próprios homens.
General Augusto Heleno, militar respeitado em todo o país, ex-chefe do GSI e conhecido pela conduta exemplar, encontra-se preso, ameaçado de perder sua patente, tratado como criminoso após décadas de serviço à nação. General Walter Braga Netto, cuja trajetória inclui momentos decisivos para a segurança e a administração pública, enfrenta o mesmo cenário: prisão, humilhação pública, risco de expulsão das Forças Armadas e o apagamento simbólico de uma carreira inteira dedicada ao país. Outros generais, coronéis e oficiais, muitos com mais de 40 anos de serviços prestados, também estão encarcerados, expostos e arrastados a um julgamento moral conduzido não pelas instituições tradicionais da caserna, mas pela arena da narrativa política — sempre volátil, sempre seletiva.
E, em meio a tudo isso, permanece o silêncio do Comandante do Exército, General Tomás Paiva. Seus homens estão presos, expostos e destruídos publicamente, e ele não diz uma palavra. Para muitos, esse silêncio ultrapassa a neutralidade institucional e se transforma em omissão; para outros, traduz alinhamento político; para tantos, significa abdicação moral. A ausência de posicionamento de quem deveria zelar pela honra da força que comanda é, em si mesma, um fato histórico.
Enquanto militares com histórico de honra são destratados, parte da sociedade celebra a prisão de um ex-presidente sem escândalos comprovados de corrupção. Ao mesmo tempo, figuras políticas envolvidas em décadas de casos de desvio, condenações, anulações processuais controversas e escândalos monumentais são tratadas com indulgência, respeito e até reverência. A lógica é seletiva. A moral é seletiva. A justiça, muitas vezes, também parece seletiva.
E assim retornamos ao ponto de origem: a República nasceu de uma traição. Cresceu em crise. Madurou invertendo valores. E hoje se esgarça diante dos olhos de todos. Tornou-se um país que perdeu o senso de justiça, a hierarquia moral, a coerência histórica e a capacidade de reconhecer seus melhores homens — substituindo fatos por narrativas, disciplina por conveniência, honra por versões.
Qual a leitura que ecoa o próprio passado do Brasil?
Quando um regime nasce rompido, ele tende a repetir sua ruptura indefinidamente. E o resultado está diante de nós.
Eis aí o resultado do Brasil República.
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