Marcio Curvello
Por que celebram mitos e esquecem os negros que realmente construíram o Brasil?
O país exalta símbolos frágeis enquanto apagou engenheiros, editores, juristas, escritores e líderes negros que mudaram o Brasil com feitos concretos e legado real.
Por que celebram mitos e esquecem os negros que realmente construíram o Brasil?Eles estavam nos jornais, nas redações, nos debates literários, nas salas de aula e nas tipografias.
E estavam lá com competência, não com concessão.
Mas o século XX — esse sim — tratou de apagá-los. A narrativa dominante preferiu criar símbolos simplificados a reconhecer trajetórias complexas e brilhantes.
Como explicar que Luiz Gama, o jurista que libertou mais de 500 pessoas pela via legal, ainda não ocupe o imaginário popular como deveria?
Ou que André Rebouças, um dos maiores engenheiros do Império e conselheiro direto de Dom Pedro II, seja praticamente desconhecido do grande público?
Por que José do Patrocínio — que articulou a abolição na imprensa com eficácia política incomparável — não é tratado como herói nacional?
E como aceitar que Machado de Assis, o maior escritor brasileiro, ainda seja alvo de leituras que ignoram sua origem negra, pobre e periférica?
A resposta é dura: esses homens desmontam narrativas convenientes.
Eles demonstram que, mesmo em um país escravista, existiram negros que ascenderam socialmente, intelectualmente e profissionalmente por mérito real — sem tutela ideológica, sem militância partidária, sem construção mítica.
Enquanto isso, nomes como Zumbi dos Palmares — cuja biografia é mínima, debatida, incompleta e muitas vezes romantizada — são elevados a símbolos absolutos. Não porque tenham feito mais, mas porque é mais útil politicamente manter um mito do que reconhecer a força de quem realmente construiu este país.
O apagamento também é estratégico.
Se a sociedade reconhece que tivemos engenheiros negros de elite, juristas de excelência, psiquiatras inovadores, generais respeitados, professores de destaque e editores que moldaram a cultura nacional, cai por terra a ideia de que negros sempre foram excluídos de tudo até ontem.
A existência desses homens — e de mulheres igualmente apagadas — desmonta a narrativa da incapacidade, da tutela eterna, da eterna posição de objeto político.
E é justamente por isso que sua memória precisa ser resgatada.
A herança desses personagens é uma herança de grandeza.
Não é uma herança de dor, mas de construção.
Não é uma herança de sofrimento, mas de brilhantismo.
É uma herança que deveria ser o alicerce de qualquer luta séria por igualdade racial, porque mostra que o negro brasileiro foi, é e sempre será agente da própria história — e não apenas vítima dela.
O movimento que se propõe a lutar pela igualdade racial precisa decidir qual história deseja defender:
— a história de mitos vagos e utilitários,
ou
— a história de homens reais, com feitos reais, que transformaram o país.
Eu, pessoalmente, escolho os que construíram.
Luiz Gama, André Rebouças, José do Patrocínio, Machado de Assis, Juliano Moreira, Estanislau Bittencourt, Theophilo José de Almeida, Hemetério José dos Santos, João Cândido Felisberto, Francisco de Paula Brito — esses são os nomes que contam a verdadeira história da excelência negra no Brasil.
Resgatar esses protagonistas não é uma escolha política.
É uma obrigação moral, histórica e jornalística.
Se a história fosse contada com honestidade, a memória brasileira teria como referência nomes como o de Francisco de Paula Brito, tipógrafo negro que, em 1831, comprou a modesta livraria do primo e a transformou em uma das maiores editoras do Segundo Reinado. Não apenas prosperou: Paula Brito ganhou prestígio suficiente para ter d. Pedro II como acionista e, em 1851, recebeu o título oficial de Impressor da Casa Imperial.
Ele não foi tolerado — foi respeitado.
Paula Brito imprimiu um dos primeiros jornais em defesa dos direitos dos negros e publicou as primeiras obras de Teixeira e Sousa e de um jovem chamado Machado de Assis. Sim, o maior escritor brasileiro foi descoberto por um editor negro, num Brasil escravista que, ao contrário do que se repete hoje, possuía uma intelectualidade negra ativa, influente e socialmente ascendente.
A pesquisa de Rodrigo Camargo de Godoi reforça que Paula Brito não foi exceção. Ao lado dele, surgiram figuras como o jurista Antônio Pereira Rebouças e o político Francisco Jê de Acaiaba Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha — homens negros que ocuparam posições estratégicas no direito, na medicina, no parlamento e no jornalismo.
Filhos e netos de escravos que escaparam do cativeiro e alcançaram o topo de suas carreiras.
E aí surge a pergunta incômoda: por que esses nomes, todos documentados, bem-sucedidos e historicamente fundamentais, não são celebrados com a mesma força que símbolos frágeis, mitificados ou desconectados de feitos concretos?
A explicação é simples — e desconfortável:
esses homens provam que o negro brasileiro sempre teve protagonismo real.
Provaram que era possível ascender, liderar, pensar, criar, editar, ensinar, governar.
E é exatamente isso que muita gente prefere não mostrar.
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