CIÊNCIA BRASILEIRA PERDEU PATENTE INTERNACIONAL DA POLILAMININA POR FALTA DE RECURSOS
Pesquisa desenvolvida na UFRJ deixou de ter proteção no exterior após universidade não conseguir arcar com taxas internacionais durante o governo Dilma Rousseff (PT)
Dra Tatiana Sampaio, responsável pelos estudos conduzidos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foto: Reprodução | Facebook Substância estudada para auxiliar na regeneração da medula espinhal representa inovação e avanço para a medicina nacional e internacional
Rio de Janeiro (RJ) — Uma das pesquisas mais promissoras na área de regeneração da medula espinhal desenvolvida no Brasil perdeu a proteção internacional após a patente da Polilaminina não ser mantida por falta de recursos para pagamento das taxas no exterior. A informação foi tornada pública pela Dra. Tatiana Sampaio, responsável pelos estudos conduzidos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A polilaminina vinha sendo estudada como potencial ferramenta para auxiliar na recuperação de lesões medulares, um dos maiores desafios da medicina contemporânea. A proposta da pesquisa é estimular a regeneração de neurônios danificados, oferecendo perspectivas terapêuticas a pacientes com lesões na medula espinhal.
De acordo com a pesquisadora, a universidade não conseguiu arcar com os custos necessários para manter a proteção internacional da inovação. O episódio ocorreu em meio aos cortes orçamentários durante o segundo mandato da então presidente Dilma Rousseff (PT) que atingiram a ciência brasileira, quando houve contingenciamentos significativos no orçamento destinado a universidades e instituições federais de pesquisa.
A proteção internacional é considerada etapa essencial para colocar o país em posição estratégica na disputa global por inovação, além de atrair investimentos, estabelecer parcerias industriais e garantir que o conhecimento desenvolvido no país gere retorno econômico e impacto social.
Especialistas apontam que o caso evidencia uma dificuldade recorrente do Brasil: produzir ciência de alto nível, mas enfrentar obstáculos para transformar esse conhecimento em ativos protegidos e competitivos no cenário internacional. Sem a manutenção das patentes, abre-se espaço para que descobertas desenvolvidas em instituições brasileiras possam ser exploradas por outros mercados.
Apesar da perda da proteção internacional, a pesquisadora garantiu a proteção nacional patenteando o projeto através de recursos próprios, ou seja, bancou do próprio bolso o pagamento dos valores das taxas.
A pesquisa e o tratamento seguem em desenvolvimento com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do laboratório Cristália, o único fabricante do remédio revolucionário.
🧬 Entenda o estudo
A polilaminina é uma proteína recriada em laboratório a partir da laminina, componente naturalmente presente no organismo humano e associado à regeneração das conexões nervosas. De acordo com os pesquisadores, quando reintroduzida no corpo, a substância cria um ambiente favorável para que os neurônios reconstruam conexões interrompidas pela lesão, permitindo novamente a condução dos impulsos elétricos responsáveis pelos movimentos.
Antes da autorização pela Anvisa em 2026 para os testes clínicos formais, o tratamento havia sido aplicado de forma experimental em animais e em oito pacientes com lesões medulares graves. Seis deles sobreviveram e apresentaram recuperação motora em diferentes níveis.
Bruno Drummond, ficou tetraplégico após um acidente em 2018. Foto: Reprodução | Instagram
Um dos casos mais emblemáticos é o do bancário Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que ficou tetraplégico após um acidente em 2018. Duas semanas após receber a injeção experimental, conseguiu movimentar o dedo do pé.
Bruno Drummond e sua recuperação extraordinária após iniciar os testes. Foto: Reprodução | Instagram
📝 OPINIÃO EDITORIAL
O Jornal Gazeta do Rio reafirma que cultura e produção audiovisual são expressões legítimas da sociedade brasileira e possuem relevância econômica e simbólica. Reconhecimentos internacionais são motivo de celebração.
Entretanto, soberania não se constrói apenas com discursos ou projeções simbólicas. País que perde patente científica por incapacidade de manter sua proteção internacional enfrenta um problema estrutural de prioridade. Ciência e tecnologia são pilares estratégicos de qualquer nação que pretenda autonomia econômica, protagonismo internacional e desenvolvimento sustentável.
O atual governo tem reiterado, em diferentes fóruns, o compromisso com a soberania nacional. Esse conceito, porém, exige coerência prática. Soberania científica depende de investimento contínuo, previsibilidade orçamentária e proteção da propriedade intelectual desenvolvida em instituições brasileiras.
Premiações culturais projetam imagem. Avanços científicos transformam realidades. Um prêmio internacional pode gerar prestígio momentâneo, mas não salva vidas, não cura pacientes e não posiciona o país na fronteira tecnológica global.
Que os equívocos do passado — marcados por cortes e falta de visão estratégica — sirvam hoje como aprendizado. O Brasil não pode repetir erros que custam décadas de atraso científico. Se a soberania é, de fato, prioridade, ela deve começar pela valorização concreta da ciência nacional.
Reconhecimento simbólico emociona. Protagonismo científico constrói o futuro. Uma estatueta do Oscar não muda em nada a realidade de nosso país. Um reconcimento científico sim. Em muitos casos traz esperança para quem já deixou de acreditar nela.
Marcio Curvello
Jornalista | DRT 0042122/RJ
Editor-Chefe do Jornal Gazeta do Rio
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