Anvisa autoriza estudo clínico de medicamento brasileiro para tratar lesão na medula espinhal

Pesquisa desenvolvida na UFRJ, com apoio da Faperj, entra na fase de testes em humanos

Assessoria de Comunicação FAPERJ
Anvisa autoriza estudo clínico de medicamento brasileiro para tratar lesão na medula espinhal Bruno sofreu um acidente que o deixou tetraplégico | Arquivo pessoal

Substância experimental será aplicada durante cirurgia em pacientes com lesão recente e pode abrir novo horizonte terapêutico no país

Rio de Janeiro (RJ) — Uma pesquisa conduzida ao longo de mais de 25 anos por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) alcançou um marco decisivo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 do estudo clínico de um medicamento experimental brasileiro voltado ao tratamento de lesões recentes na medula espinhal. A substância, conhecida como polilaminina, será testada em humanos após resultados considerados inéditos em pesquisas anteriores.


Bruno Drummond de Freitas. Foto: Arquivo pessoal

O estudo conta com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e tem como objetivo inicial avaliar a segurança do medicamento. Nesta primeira fase clínica, até cinco voluntários adultos com lesão completa da medula espinhal na região torácica, ocorrida há no máximo 72 horas, poderão participar. Todos terão indicação cirúrgica, e a aplicação será feita diretamente na área lesionada durante o procedimento.

A polilaminina é uma proteína recriada em laboratório a partir da laminina, componente naturalmente presente no organismo humano e associado à regeneração das conexões nervosas. De acordo com os pesquisadores, quando reintroduzida no corpo, a substância cria um ambiente favorável para que os neurônios reconstruam conexões interrompidas pela lesão, permitindo novamente a condução dos impulsos elétricos responsáveis pelos movimentos.

Antes da autorização para os testes clínicos formais, o tratamento foi aplicado de forma experimental em animais e em oito pacientes com lesões medulares graves. Seis deles sobreviveram e apresentaram recuperação motora em diferentes níveis.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Bruno Drummond de Freitas, 31 anos, que ficou tetraplégico após um acidente em 2018. Duas semanas após receber a injeção experimental, conseguiu movimentar o dedo do pé. 


Bruno Drummond de Freitas. Foto: Arquivo pessoal

“Acordei da cirurgia sem conseguir mexer braços, pernas, quadril ou abdômen. Nada respondia”, contou. No início, as perspectivas médicas eram desanimadoras. “Disseram que eu ficaria em cadeira de rodas para o resto da vida. Depois, falaram que talvez conseguisse andar com muletas. Mas eu nunca perdi a esperança”, relembra.

Ainda durante a internação, um pequeno sinal mudou completamente o rumo da história. “Um dia, no hospital, mexi o dedão do pé. Aquilo foi um choque para todo mundo. A partir dali, a cada semana eu evoluía mais”, afirmou Bruno.


Bruno voltou a caminhar com limitações, mas independente. Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, ele voltou a caminhar com limitações, mas de forma independente — um avanço considerado extraordinário diante do diagnóstico inicial.


Bruno tem evoluído e recuperado os movimentos. Foto: Arquivo pessoal

Nos testes com animais, os resultados também chamaram atenção: quatro de seis cães tratados com a polilaminina voltaram a se movimentar após a aplicação.

O Brasil em posição de destaque 

Segundo o neurocirurgião Marco Aurélio de Lima, um dos responsáveis pelo estudo, os dados obtidos até agora colocam a pesquisa brasileira em posição de destaque no cenário internacional.

“Nenhum estudo no mundo havia demonstrado resultados de regeneração medular como esse”, afirmou durante a apresentação dos resultados.

Para os testes clínicos agora autorizados, será utilizada uma versão padronizada do medicamento, desenvolvida em parceria com o laboratório Cristália, que também atua como patrocinador do estudo. A padronização é considerada essencial para garantir controle de qualidade, reprodutibilidade e segurança, exigências fundamentais para qualquer avanço regulatório.

Caso a fase 1 confirme a segurança do produto, o estudo poderá avançar para etapas seguintes, voltadas à avaliação da eficácia em um número maior de pacientes. Por se tratar de uma lesão de alto impacto funcional e social, com poucas alternativas terapêuticas disponíveis, o medicamento poderá futuramente ser analisado em procedimentos regulatórios especiais.

Com investimento a ciência ganha fôlego 

O avanço da pesquisa ganhou fôlego a partir do apoio institucional da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), responsável por financiar etapas consideradas decisivas para a consolidação do projeto ao longo dos anos. O investimento permitiu a continuidade dos estudos, a estruturação dos laboratórios e o amadurecimento científico necessário para que a pesquisa chegasse ao atual estágio.

Para a presidente da Faperj, Caroline Alves, o avanço da pesquisa evidencia o retorno do investimento contínuo em ciência pública.

“Estamos falando de uma pesquisa construída ao longo de décadas dentro das universidades públicas. Ver esse conhecimento avançar para um estudo clínico representa uma conquista para o Rio de Janeiro e uma nova esperança para pessoas que hoje convivem com a ausência de opções de tratamento”, destacou.


Caroline Alves, Presidente da FAPERJ. Foto: Divulgação 

A autorização da Anvisa foi concedida no âmbito do Comitê de Inovação da agência, criado para dar mais agilidade à avaliação de tecnologias consideradas estratégicas. A expectativa é que o estudo tenha início nas próximas semanas, após a definição dos hospitais participantes e a conclusão dos trâmites operacionais.

Com resultados preliminares que já indicam recuperação funcional e um estudo clínico oficialmente autorizado, a pesquisa da UFRJ entra em uma nova fase. O avanço reforça o papel da ciência brasileira na busca por soluções para condições complexas e coloca o país no centro das discussões sobre regeneração da medula espinhal.


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