Vinicius Domingues Cavalcante, CPP

Mesmo os mais Inábeis Terroristas servem de Alerta

Em análise, o colunista Vinicius Domingues Cavalcante discute como ações frustradas de terrorismo revelam falhas estruturais, desafios legais e a urgência de investimentos contínuos em inteligência e capacitação dos agentes de segurança no Brasil.

Arte: Equipe Jornal Gazeta do Rio
Mesmo os mais Inábeis Terroristas servem de Alerta Mesmo os mais Inábeis Terroristas servem de Alerta. Imagem Ilustrativa

A recente operação policial no Rio de Janeiro aparentemente teria conseguido evitar uma ação de promoção de atentados simultâneos em Brasília (DF), Rio de Janeiro e São Paulo (SP). É impossível apresentar estatísticas de ações de terrorismo desencorajadas pela existência de bons "esquemas de segurança" ou frustradas antes de serem deflagradas. Normalmente, a atividade de segurança só vem a merecer a atenção e os comentários do grande público quando se vê sobrepujada pela ação cada vez mais ousada dos criminosos, loucos ou terroristas. Quando consideramos que, na maioria das vezes, só tomamos conhecimento de atentados pelos seus efeitos violentos e impactantes, depois que eles ocorrem, saber desse sucesso das forças de segurança é um grande alento.  

Para prevenirmos ações de terrorismo, a execução de todas as medidas de segurança deve ser precedida de um elaborado planejamento, no curso do qual se avaliará todas as informações disponíveis sobre riscos (possibilidades de perigos, atentados, acidentes e contrariedades em geral), inimigos e adversários em potencial, identificação (se possível com fotografias, endereços de I.P. e telefones) de grupos ou de pessoas, avaliação de recursos à disposição dos antagonistas que possam ser empregados em ações de atentado, histórico de ações anteriores perpetradas pelos referidos grupos ou indivíduos, seus modus operandi, denúncias anônimas, informações da procedência mais diversa, informações sigilosas etc. 

 

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O reforço no policiamento ostensivo, cães, detectores, veículos, helicópteros ou o emprego dos grupos especiais como o BOPE, o COT, da Polícia Federal, o SAS britânico, a Força Delta norte-americana ou o GSG-9 alemão talvez sejam aspectos mais visíveis da proteção contra o terrorismo, porém não se pode dissociar a atividade de segurança de um eficaz suporte de Inteligência. Curiosamente a diferença entre o montante que despendemos com grupos de elite e o que gastamos capacitando os first-responders (que são os policiais comuns, guardas municipais e vigilantes privados) para atuar em face ao terrorismo é desproporcional. Ás vezes acho mesmo que esquecemos a máxima de que a força da corrente de proteção repousa na capacidade do elo mais fraco...

As informações oriundas dos levantamentos de inteligência são o alicerce do planejamento de todas as ações de combate ao terrorismo; e tendo por objetivo antecipar-se às ações de atentado, faz-se imperioso ter em mente quem seriam os prováveis inimigos, suas ligações, seus meios de ação, indicar as deficiências nos planejamentos de segurança que cercam os objetivos dos atacantes, vulnerabilidades dos locais potencialmente mais indicados como alvos, de forma a poder estabelecer os cursos de ação adequados às forças de segurança. Nada disso se faz por mágica ou processos advinhatórios. É investigação séria e exaustiva. 


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Suspeitos de se dedicaram ao radicalismo violento devem ser apontados, vigiados diuturnamente em seus contatos virtuais, telefônicos e pessoais, ter seus sigilos legalmente quebrados, sendo que isso, no Brasil, sempre pode ser apontado como um cerceamento dos Direitos Democráticos do cidadão! Principalmente no Brasil, onde a própria legislação incrivelmente não tipifica as motivações políticas como razões de atos de terror! 

No julgamento que se faz da "performance" dos elementos das forças de segurança encarregadas de se opor ao terrorismo, os cidadãos normalmente não levam em consideração que, em se tratando da administração de questões referentes à segurança e inteligência, quase sempre as questões (e opiniões) de caráter puramente político acabam preponderando sobre as considerações de ordem técnica. Em tempos de paz, administra-se o risco pensando no julgamento da mídia e da opinião pública, nos desdobramentos eleitorais desta ou daquela medida; ainda que contrariando ou mesmo irremediavelmente comprometendo aquilo que aconselha a boa técnica. Tal situação é extremamente benéfica para criminosos e terroristas que, no Brasil, descortinam uma grande liberdade para suas ações. 


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Os profissionais da segurança devem esforçar-se por antever os passos de um inimigo quase sempre astuto e determinado, que se esconde nas sombras e que não tem dia e nem hora para atacar, sendo pagos para acreditar que a qualquer momento poderão ser exigidos a ganhar o seu dinheiro da forma mais dura e arriscada possível. São sabedores de que em todo planejamento de segurança existe uma possibilidade de falha impossível de ser eliminada, e tal constatação apenas justifica todo um redobrar de cuidados, o qual na maioria das vezes é visto pelo público em geral de forma bastante impopular, como um cerceamento de sua liberdade, intromissão na vida privada ou mesmo como uma paranóia.

Por sorte, os criminosos envolvidos nessa ação debelada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro não me pareceram dos mais profissionais, a ponto de se deixarem apanhar falando claramente de sua operação e objetivos; mas, embora não devamos subestimar um adversário capaz de articular-se em três importantes Estados da Federação diferentes, desde os Jogos Olímpicos que os nossos potenciais terroristas vem se deixando apanhar em deslizes bastante primários. 


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Contudo, vejo que saber que existem pessoas dispostas ao cometimento de atentados aqui seja algo tremendamente salutar! Nossos concidadãos (sobretudo nossas autoridades políticas), que em boa parte das vezes jamais pararam para refetir sobre o uso do do modus operandi terrorista pelo nosso narcotráfico, precisam ser “sacudidos” e alertados. Eles devem aprender mais sobre como os terroristas se organizam e agem, encarar a necessidade de estabelecimento de procedimentos de segurança de verdade, providenciar e valorizar profissionais de segurança treinados e em quantitativo satisfatório, adquirir equipamentos de vigilância, detecção e alarme etc.

Se opor ao terrorismo não é tarefa exclusiva dos profissionais de segurança, policiais, militares, guardas municipais ou vigilantes privados.  A opinião pública precisa ser melhor informada, pois o terrorismo, embora não possa ser de todo evitado, poderá ter seus efeitos visivelmente minimizados se o público souber como proceder, de forma melhor colaborar com as autoridades. A  proteção contra o terrorismo apenas poderá ser alcançada se todos aqueles que a quem couber alguma responsabilidade no âmbito da segurança estiverem cientes daquilo que deles se espera: do simples porteiro ao vigilante, do guarda municipal, policial militar de rua aos agentes de segurança trabalhando à paisana, bombeiros e paramédicos... A verdadeira segurança não se improvisa e decorre de um caro esforço planejado e concentrado de todos os segmentos de uma sociedade.

Vinicius Domingues Cavalcante, CPP
Consultor em Segurança | Especialista em Antiterrorismo
Membro da ABSEG | Presidente do Conselho Empresarial de Segurança da ACRJ
Presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Nova Friburgo
📧 vdcsecurity@hotmail.com



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